Uma das lições mais difíceis que as mães têm que aprender é que há coisas que não podemos evitar. É claro que ninguém quer que o filho sofra, mas nem sempre poderemos impedir. E as quedas também fazem parte do aprendizado, de uma vida saudável e equilibrada, não é?
Na terça-feira tocou meu telefone. Era da escola. Do outro lado uma voz doce disse que Arthur havia caído e batido a cabeça. Chegou a abrir e ele estava sendo levado para o hospital.
Eu já recebi alguns telefonemas da escola. E em absolutamente todas as vezes temi que ele tivesse se machucado e precisasse levar pontos, por isso sempre que falavam que era do Mopi eu já começava a torcer: é febre, é febre, é febre. Dessa vez não foi diferente. Durante todo o tempo em que ela se apresentava, falava que era da escola, eu só torcia, "é febre, é febre, é febre". Eu sei que parece estranho, afinal, quanto tempo pode demorar para dizer "Oi Rachel, aqui é a Adriana do Mopi" antes de chegar na parte do "é que o Arthur estava brincando e caiu"??? Uns três segundos? Mas, para as mães aflitas, parece uma eternidade.
E então ela disse: "É que o Arthur estava brincando e tropeçou, bateu com a cabeça na pia. Chegou a abrir e nós vamos levá-lo para o hospital."
E lá estava ela, na minha cara, a notícia que eu sempre temi ouvir.
Acho que é bom esclarecer algumas coisas neste ponto: eu nunca me cortei e precisei levar pontos, portanto não é nenhum tipo de trauma. Meu filho não é nenhum santinho, daqueles que ficam imóveis o tempo todo, mas também não é nenhuma peste que fica subindo e se jogando das coisas. Na verdade ele é um garoto bem tranquilão. E eu simplesmente não sei de onde vinha esse meu medo dos pontos.
Quando a temida notícia chegou, eu não tive condições de pensar em absolutamente nada. Simplesmente me levantei, peguei a bolsa e disse à minha chefe que estava indo pro hospital porque o Arthur tinha aberto a cabeça. Foi tudo muito rápido. Nessas horas acho que eu ajo primeiro e penso depois. Saí que nem uma flecha. Depois de um tempo (devem ter sido uns 30 segundos - daí vocês podem ver que, na hora do susto, essa coisa do tempo fica ultra-relativa), consegui pensar na coisa mais sensata a fazer: "minha prima é madrinha do Arthur, é pediatra, mora a uma quadra da escola e do Samci. E está de férias. Tenho que ligar pra ela."
É claro que uma mãe aflita jamais pensaria que a prima vai casar na sexta-feira e está cheia de coisas para resolver, não é??? O mais engraçado é que nem a prima/madrinha/pediatra (ou seria pediatra/madrinha/prima, ou, melhor, madrinha/prima/pediatra?) pensou nisso. Ela estava entrando no metrô para ir ao Centro da cidade e disse apenas: "Estou indo pra lá agora!"
Só depois de falar com ela pensei em avisar ao pai. Juro que não foi por falta de consideração. Eu só pensei primeiro na coisa mais prática. Quem está perto e pode nos ajudar? Depois aviso ao meu marido, que trabalha ali perto, mas naquele dia estava no Fundão.
Tudo estava encaminhado. Fui para o hospital, mas demorei um pouco a chegar (de Botafogo para a Tijuca tem trânsito em qualquer hora do dia!). Embora eu não estivesse desesperada, Tranquilidade mesmo só senti quando a Fernanda me ligou, dizendo que já estava com o Arthur, que ele estava calmo e que era um corte pequeno, só levaria dois pontos.
Quando eu cheguei lá, mal pude acreditar na cena: Arthur já estava suturado, quieto, tranquilo, no colo da dinda. Sem cara de choro. Sem manha. Nem se jogou para cima de mim quando me viu. Apenas me deu um beijo e ficou no colo dela. Ele estava se sentindo seguro!!!
A partir daquele momento todo o meu sentimento mudou. A aflição foi embora. Fui tomada por dois outros sentimentos.
O primeiro foi orgulho! Afinal, meu rapazinho se comportou muito bem. Só chorou na hora do acidente, mas logo parou. Foi para o hospital com a coordenadora e a psicóloga numa boa. Ficou com a dinda na maior tranquilidade. E tomou os pontos sem chorar. Só reclamou um pouco que estava doendo, mas não chorou, não mexeu a cabeça, não tentou parar a médica.
O outro sentimento foi gratidão! Aos profissionais do Mopi, tão atenciosos e dedicados. Tão gentis! E, acima de tudo, à minha prima. Eu sei que ela vai dizer que não há nada para agradecer, que era o Arthur precisando dela e que ela faria isso mesmo no dia do casamento. Prima, eu sei. Mas você terá seus filhos e vai entender. De todas as coisas que ela poderia fazer por mim, de todos os presentes que poderia me dar, aquele sem dúvida foi o maior. Estar tão disponível para ele. Segurar a mão dele na hora dos pontos. Ampará-lo quando estava com dor. E, o melhor de tudo, fazer com que ele se sentisse seguro, tranquilo. Ver a confiança que ele depositou nela encheu meu coração de uma ternura que nunca serei capaz de pôr em palavras. É claro que ele sempre gostou dela!!! (Aliás, esta é uma coisa que meu filho tem muito bem estabelecida: uma ótima relação e muita confiança nas pessoas mais importantes - vovôs, vovós, Di Renata, Di Fernanda...) Mas todos sabemos que crianças, quando se machucam, só querem a mãe. E lá estavam eles, afilhado e madrinha, numa sintonia perfeita.
Sabe o que é mais curioso? Na semana passada ela estava preocupada, dizendo que ele ia ficar triste com ela, que ia achá-la uma péssima madrinha, porque ela estava tão enrolada com as coisas do casamento que não tinha comprado o presente de dia das crianças dele...
Alguém aí acredita mesmo que ele vá pensar uma coisa dessas???